IVANOV: ESBOÇO PARA A TEORIA DA IMPOTÊNCIA

17 jun

Crítica de Márcio Marciano no Zona de Transição – I Festival Internacional de Artes Cênicas do Ceará

Um homem se afunda numa poltrona, rodeado de livros que empilha, mas não lê. Quando lê, não entende, quando entende, não assimila, quando assimila, esquece. Um homem se afunda numa poltrona, literalmente, a ponto de ser engolido por ela. Um homem se afunda em si mesmo, rodeado de pessoas que lhe interpelam, em vão. Quando se digna a ouvi-las, não as entende, quando entende, não assimila seus apelos e desejos, quando o faz, desdenha-os, ridiculariza-os, explora-os como objetos de uma ciência pessoal e irascível. Um homem se afunda em si mesmo, ironicamente, a ponto de deixar-se engolir numa voragem paralisante. Esta imagem circular sintetiza o percurso/experiência de Ivanov, espetáculo do Teatro Máquina.

Trata-se da apropriação do texto de Tchekhov, utilizado como material cênico a partir do qual projeta-se uma narrativa aberta que se vale da proximidade entre público e cena para estabelecer sensíveis esboços, pequenos estudos acerca do descompasso humano entre vontade e realização. Sem o compromisso de fundar um espaço simbólico autônomo, historicamente localizável numa Rússia em vias de transformação revolucionária, às voltas com as contradições de um mundo que desaba e, a partir daí, tecer considerações de proximidade com a vida brasileira, o espetáculo opta por deslocar-se para o terreno não mapeável das interações humanas, e a partir desse sutil ajuste de foco, propõe a instauração de um espaço relacional entre atores e espectadores, de modo a fazer com que o contexto histórico surja a contrapelo.
Embora sutil, a manobra não é fácil e exige além de domínio técnico, um perfeito entendimento do texto que se estrutura por trás das palavras de Tchekhov, um texto sem palavras, mas contaminado por imagens de uma potência perturbadora. Nesse espaço de proximidade, já não se trata de inventariar semelhanças entre o universo tchekhoviano e a sociabilidade brasileira, mas de reconhecer nos interstícios das relações humanas o que há de comum, embora condicionado historicamente, no comportamento de seres marcados pela impotência da ação. Sejam os representantes russos de uma aristocracia decadente, sejamos nós, os pequeno-burgueses do capitalismo tardio.

Essa operação só é possível porque os atores conseguem dar realismo às cenas à medida que se afastam de qualquer tentativa de mimetismo psicológico. A proximidade do público não permite nenhum truque ilusionista, nenhum acobertamento do aparato cênico, nenhum subterfúgio representacional. O que vemos é o que é: o corpo dos atores em jogo.

Esses corpos, imersos numa gestualidade não cotidiana, têm a mesma qualidade de significação do projetor de filmes ou dos refletores à mostra, assim como dos móveis e demais objetos do espaço cênico (a peça é apresentada num antigo casarão mobiliado do século XIX): carregam em si uma historicidade que ultrapassa os limites estreitos da representação, e destilam uma qualidade de presença que somente se realiza pelo e com o olhar do público, inserido na dramaturgia da cena como “olhar da vizinhança”, aquele olhar que observa o universo privado pelas frestas, como medo de ser surpreendido no flagrante delito. Um olhar que se assombra e se reconhece no universo do outro pelo que este possui de aparentemente estranho e profundamente familiar.
Servem enfim de instrumento a serviço da narrativa, empenhada na construção de um sentido que vai além do fabular, para se instalar como reflexão fragmentária e reincidente sobre a incapacidade de uma efetiva comunicação entre seres que tentam em vão uma aproximação sincera que ultrapasse o campo minado da própria subjetividade.

Desta forma, o espetáculo materializa não apenas as imagens de Tchekhov, marcadas por uma ironia ao mesmo tempo cruel e indulgente, mas o próprio método da escrita tchekhoviana, que se constrói pelo não dito, pelo que subjaz nas fraturas do discurso autoconsciente, pela negação dialética da própria incerteza que mantemos acerca de nós mesmos.

28 dez

“O amor não é um ócio”

19 out

Notas do sentir e pensar para “Ivanov”, de Anton Tchékhov e Teatro Máquina

Por Gyl Giffony

É por isso que se há de entender
Que o amor não é um ócio
E compreender
Que o amor não é um vício
O amor é sacrifício
O amor é sacerdócio
Amar
É iluminar a dor
- como um missionário

Viver do Amor – Chico Buarque

Do sentir e pensar, não necessariamente na mesma ordem

O que pode tornar o homem um ser ermo e inóspito?
A falta de? O ócio?
E o que conduz a esse lugar?

O que torna o indivíduo uma folha seca, madeira crua, árvore cortada ou cachorro pintado em tela? O que subtrai o fogo, foguete, faísca de uma vida? E o que tira o homem da letargia? O que faz ele permanecer na poltrona?
Ivanov afunda quando aprofunda sua constatação mais funda: há instantes na vida em que tudo é perda, material (a propriedade se vai) e sentimental (Anna também). E é no aparente nada, fincado na dor subjetiva que bagunça o ócio… É aí que Ivanov dá-se conta que é humano, que erra, que chora, que sente. Quando se banha em lágrimas, Ivanov parece compreender, através do sensível, aquilo que a razão insistia em mascarar: ele ama, ou pelo menos é capaz de sentir. E isso é inevitável para o personagem que escolheu o ócio ao amor.

Do pensar e sentir, não necessariamente na mesma ordem

Também é imprescindível a montagem “Ivanov”, de Anton Tchékhov e do Teatro Máquina. Espetáculo de autoria mista, pois Tchékhov pôs no papel, e o Máquina leu e criou, a partir de sua investigação desconstrutiva, as linhas, ou melhor, as entrelinhas do renomado escritor que possui nas possibilidades de subtexto uma de suas características mais referendadas. O grupo escreve então “Ivanov” lado a lado com Tchékhov, e dá a ler de forma afinada suas referências através dos elementos que dispõe na cena (elenco, iluminação, cenário, objetos, figurinos), compreendendo com lentes próprias e apropriadas as dimensões do texto russo.

A pesquisa de linguagem que o Máquina vem encampando aparece em verso e reverso. É revista ao dar uma ênfase especial ao trabalho de atores e atrizes, bem como ao buscar na precisa encenação traços épicos vinculados a acentuações dramáticas (fisicalização das emoções atrelada à técnica de contato e improvisação; descolamento estruturais de fala, intenção e movimento; descomposição do cenário, focando texto e personagens; entrada do estranho personagem Gavrila e seu tilintar de garrafa e copos; polifonias visuais e sonoras, como nos momentos em que os personagens estão por trás das cortinas ou as conversas “ao fundo”/lateral onde os atores e atrizes permanecem visivelmente durante o todo o espetáculo).

Nesse sentido, a montagem interessa-se por apresentar, e não representar. Isto se faz notório na opção por uma linha de fala cotidiana, sugerindo uma aproximação com bases de uma não-interpretação. Ressalvas feitas a apresentação que assisti (encerramento do VII Festival de Teatro de Fortaleza, no Theatro José de Alencar, com um público em média de 250 pessoas) e sabendo que o espetáculo propõe-se a um número reduzido de espectadores em tom intimista, parece necessário uma compreensão e atenção mais ampla desta escolha por parte do elenco e da direção, pois ela traz problemas intrínsecos ao ritmo das cenas e ao entendimento do texto, principalmente na esfera da escuta.

Desafiando-se, o Teatro Máquina oferece riscos a si e ao público. Maravilha! A dramaturgia de tempo esgarçado de Tchékhov (silêncios, olhares, aparentes inações) é algo que confronta o tempo frívolo e incessante de nossos dias. Aqui está mais um ponto importante da escolha que o Máquina realiza em “Ivanov”: este tempo tchekhoviano brinda-nos com uma teatralidade outra, uma vida outra, que aparenta ser de dificultosa percepção/recepção pelo cerceamento que o sistema social moderno e a ideia de civilidade tem direcionado às experiências estéticas, aquelas que nos despertam através dos sentidos e das pulsões.

Jogando com as convenções e provocando o espectador a compor sua própria dramaturgia, a encenação convida ainda o público a ver ou se esforçar para ver algumas das últimas cenas do espetáculo através de imensas portas que são dispostas à frente da platéia pelos atores e atrizes, materializando uma “quarta parede” que o espetáculo não faz uso. Atento a contextos mais amplos, este acontecimento sugere, conforme explica Nestor Garcia Canclini, que
Mudar as regras da arte não é apenas um problema estético: questiona as estruturas com que os membros do mundo artístico estão habituados a relacionar-se, e também os costumes e crenças dos receptores. Um escultor que decide fazer obras com terra, ao ar livre, não colecionáveis, está desafiando os que trabalham nos museus, os artistas que aspiram a expor neles e os espectadores que vêem nessas instituições recintos supremos do espírito (Nestor Garcia Canclini; Culturas Híbridas; p. 40).

“Ivanov” interessa-me então como artista, espectador e sujeito. Nessa conjugação, e com sentimento de felicidade e inquieto pensamento, escrevo estas linhas. O Teatro Máquina é um grupo muito próximo a mim e no qual acredito bastante. Penso também que “Ivanov” oferece ao grupo uma dimensão não tão hermética quanto espetáculos anteriores, como “Repéter” (2007/2009) e “O Cantil” (2008), e o melhor disso é que o coletivo não abriu mão de sua aprofundada pesquisa de linguagem e de seus experimentos formais, o que acontece também em seu penúltimo espetáculo “João Botão” (2010). “Ivanov” (2011) diz para mim do amor, do ócio, e que vale a pena ver, fazer, acreditar e transformar o teatro.

Ivanov_Иванов_ трейлер 2009

14 out

Despedida de João Pessoa

17 jul

Todos convidados!

Intercâmbio entre grupos no Teatro Lima Penante

14 jul

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Imagens da oficina realizada pelo Teatro Máquina aos Grupos Piollin, Graxa e Lua Crescente no Teatro Lima Penante em João Pessoa-PB.

Crítica PB1: peça “Ivanov” suscita questões acerca de si e do outro

11 jul

POR ISA PAULA MORAIS

Envolto numa luz amarela, Nicolas Ivanov espera pelo público, recostado numa cadeira branca, junto ao cenário composto de janelas de madeira clara e cortinas brancas. Encontra-se imerso num livro verde, próximo a outros livros folheados até a metade, a um bloco de notas, a um copo de vidro. E assim o público, que mais parece ser composto de voyeurs curiosos, debruça os olhos sobre as outras personagens dispersas na escuridão. E assim chega aos olhos, a peça ‘Ivanov’, dirigida por Fran Teixeira, colocando em cena o Grupo Teatro Máquina, vindo de Fortaleza (CE).
Já acomodados, os espectadores – que de tão próximos às personagens russas sentem-se um tanto parte da trama – percebem as figuras que, aos poucos, se mostram e desabrocham. Surge, então, Bórkin, na condição de administrador da propriedade de Ivanov, para desconcentrá-lo do movimento ocular da leitura. Nestes instantes iniciais, Nicolas mostra já os matizes ensimesmados de seu comportamento, através de seu descontentamento frente à presença ébria do administrante. A figura miúda e imponente de Edvaldo Batista, o Ivanov, consegue levar que o assiste àqueles tempos passados na reconfiguração de um presente angustiado.
A mulher de Nicolas, Anna, traz em si o aspecto frágil, no entanto, vigoroso. Ana Luísa Rios, que constrói Anna, consegue trabalhar e explorar a vivacidade sutil da personagem, que carrega a imagem do marido Nicolas ainda em tempos outros, mais coloridos e risonhos. A mulher remonta uma pessoa que não mais existe, visto sua mudança de comportamento para aquele hoje melancólico, preocupado com as reações, culpas, expressões próprias.
As personagens tentam, por sua vez, estabelecer contato com quem assiste à peça de teatro, a partir do ato de dirigir e fixar o olhar em pontos específicos da platéia; sentando-se junto, ombro a ombro, na tentativa de curar este distanciamento público-ator. Além disto, a peça se mostra com intervenções audiovisuais, com a projeção de árvores na parede e os sons ora tranquilos, ora desconcertantes.
Fazendo-se descobrir, está Levy Mota que edifica Lvov, o médico que atribui cuidados diários a Anna. Lvov tenta mediar a relação marido-mulher, no sentido de que a enfermidade física pressupõe aquela da mente. Anna sofre então e ainda de desamor, desafeto e duma solidão acompanhada. Para isto, o médico prescreve para o marido uma mudança de postura.
Sem forças, Ivanov mexe-se à força, fala com dificuldade, acompanha sem seguir. O sor(riso) se encontra guardado, os olhos à espreita e solitários. Como agir quando o corpo não obedece, quando não há prazer em desempenhar o papel da companhia agradável? E daí vem Sasha, com os sorrisos da atriz Aline Silva, como que para impulsionar e arvorar também sorrisos, através doutros assuntos, doutros espaços habitados por ela, de novas linhas escritas. Um amor vacilante, sem certezas, como que atraído pela novidade, pela nova idade.
A morte é sentida de forma clarividente, como Anna estivesse caída por entre flores, afogada no colorido, de volta à veemência. O ocorrido não traz o alívio conjeturado pelo médico, mas uma culpa de quem não teve forças para superar a si no tocante ao altruísmo, na ação. Há aquilo de guardar-se para não ser avaliado, no entanto, o guardar-se e o se fazer-se neutro não acarreta, naturalmente e obviamente, julgamentos neutros, na ideia de que este estado não existe.

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