Moscou, 30 de dezembro de 1888.
Ivánov é um nobre, um homem que fez universidade, mas que não se destaca por nada; tem um temperamento que se exalta com facilidade, é caloroso, muito dado a entusiasmos, é de caráter reto e honesto, como a maioria dos homens instruídos. Ele viveu em sua propriedade e serviu no ziemstvo. O que ele fez e como se portou, o que lhe despertou interesse e entusiasmo pode ser visto pelas palavras que ele dirige ao médico (ato 1, cena 5): “Nunca se case com uma judia, nem com uma psicopata, tampouco com uma sabe tudo-tudo [...] não lute contra mil, não invista contra moinhos, não bata com a cabeça contra paredes [...] e que deus o livre de qualquer organização econômica racional, de escolas excepcionais e de discursos inflamados [...]” Assim era ele no passado. Um passado admirável como a maioria dos intelectuais russos. Não existe, ou quase não existe, um nobre ou um universitário que não se vanglorie do seu passado. O presente é sempre pior do eu o passado. Porque será? Porque a excitabilidade russa possui uma característica específica: é logo substituída pelo cansaço. Mas, mal chega aos 30-35 anos, já começa a sentir tédio e cansaço. Nem bem lhe cresceram os bigodes e ele já diz com autoridade: “Não se case meu velho… acredite na minha experiência”. Ele está pronto para rejeitar o ziemstvo e a economia racional, a ciência e o amor…
Ao sentir cansaço físico e tédio, ele não compreende o que passa consigo nem o que aconteceu. Horrorizado, ele diz ao médico (ato 1, cena 3) “O senhor está me dizendo que ela vai morrer logo, e eu não sinto nem amor nem piedade, só uma espécie de vazio, de cansaço… Para que vê de fora, isso deve parecer horrível, pois eu não consigo entender o que se passa com a minha alma…”. Quando se veem nessa situação, as pessoas estreitas e pouco têm o hábito de jogar toda culpa no meio ou incluem-se na linhagem dos homens supérfluos e dos Hamlets e tranquilizam-se com isso. Mas, por ser um homem franco, Ivánov declara abertamente ao doutor e ao público que ele não se compreende. A mudança que se produziu no seu íntimo fere-lhe a honestidade. Ele procura causas externas e não as encontra; põe a procurá-las dentro de si, e só encontra um vago sentimento de culpa. Esse é um sentimento russo. O homem russo, quando alguém em sua casa morre ou fica doente, quando ele deve a alguém ou quando ele mesmo empresta, sempre se sente culpado. Ivánov fala o tempo todo de alguma, e o sentimento de culpa cresce nele a cada novo choque.
Ao cansaço, ao tédio e ao sentimento de culpa, acrescente-se mais um inimigo: a solidão. Se Ivánov fosse funcionário público, ator, pope ou professor, ele estaria acostumado a sua situação. Mas ele vive numa propriedade na província. Lá os homens são bêbados ou jogadores, ou são do tipo do doutor… Todos eles permanecem alheios aos seus sentimentos e à sua transformação. Ele está sozinho. Os longos invernos, as longas noites, o jardim vazio, os aposentos vazios, um conde resmungão, uma mulher doente… Não há para onde ir. Por isso, a todo instante atormenta-o a questão: onde se meter? Agora, o quinto inimigo. Ivánov está cansado não compreende a si mesmo, mas a vida não tem nada com isso. Ela lhe apresenta suas exigências legitimas e ele, quer queira quer não, precisa resolver os problemas. Homens como Ivánov não resolvem os problemas, mas sucumbem a seu peso. Eles se perdem, agitam-se ficam nervosos, queixam-se, cometem besteiras e, no final de tudo, depois de ter dado vazão a seus nervos plácidos e indisciplinados, sentem o chão fugir de seus pés e entram para a categoria dos “abatidos” e dos “incompreendidos”.
A. Tchékhov
(Trecho da carta 33)