Arquivos | Inspirações RSS feed for this section

Pequenos desabafos

11 mai

Ivanov me causa uma irritação tremenda. Um desconforto; uma angustia. Tem dias que eu quero gritar, outros eu quero apenas ficar calado e escutar o meu próprio texto, outros dias piores eu chego em casa e desabo… Às vezes fico calado e esqueço que estou na sala de ensaio. Imagino muito o escritório e um Ivanov parado, olhando as coisas velhas e empoleiradas. Adoro olhar para Luiza e ver duas coisas lindas: primeiro uma grande atriz em cena; segunda a forma como ela olha para Ivanov e como seu olhar me desconstrói, me desestabiliza.

Há dias em o texto engasga, se recusa a sair, sai atropelado, seco, vazio, sem muito que dizer; nesses dias eu tenho a sensação de que Ivanov estar sentado lendo um livro, distante, perdido em algum lugar que ainda não reconheço ou se reconheço não sei identificar; outros dias o texto sai melhor, mais sutil, verdadeiro, mais firme, nesses dias tenho a sensação que de Ivanov some, afunda. frustrado. É isso mesmo. Estou frustrado com meu desempenho no trabalho novo. É bem mais difícil do que eu imaginava.

Hoje pela manhã, antes que todo o grupo chegasse, fiquei exercitando alguns trechos do texto. Senti vontade de correr.

Edivaldo Batista.

Adele – Rolling In The Deep

12 abr

Atenção as cadeiras plastificadas, as xícaras quebradas e o pó.

Cartas a Suvórin

23 fev

Moscou,  30 de dezembro de 1888.

 

Ivánov é um nobre, um homem que fez universidade, mas que não se destaca por nada; tem um temperamento que se exalta com facilidade, é caloroso, muito dado a entusiasmos, é de caráter reto e honesto, como a maioria dos homens instruídos. Ele viveu em sua propriedade e serviu no ziemstvo. O que ele fez e como se portou, o que lhe despertou interesse e entusiasmo pode ser visto pelas palavras que ele dirige ao médico (ato 1, cena 5): “Nunca se case com uma judia, nem com uma psicopata, tampouco com uma sabe tudo-tudo [...] não lute contra mil, não invista contra moinhos, não bata com a cabeça contra paredes [...] e que deus o livre de qualquer organização econômica racional, de escolas excepcionais e de discursos inflamados [...]” Assim era ele no passado. Um passado admirável como a maioria dos intelectuais russos. Não existe, ou quase não existe, um nobre ou um universitário que não se vanglorie do seu passado. O presente é sempre pior do eu o passado. Porque será? Porque a excitabilidade russa possui uma característica específica: é logo substituída pelo cansaço. Mas, mal chega aos 30-35 anos, já começa a sentir tédio e cansaço. Nem bem lhe cresceram os bigodes e ele já diz com autoridade: “Não se case meu velho… acredite na minha experiência”. Ele está pronto para rejeitar o ziemstvo e a economia racional, a ciência e o amor…

Ao sentir cansaço físico e tédio, ele não compreende o que passa consigo nem o que aconteceu. Horrorizado, ele diz ao médico (ato 1, cena 3) “O senhor está me dizendo que ela vai morrer logo, e eu não sinto nem amor nem piedade, só uma espécie de vazio, de cansaço… Para que vê de fora, isso deve parecer horrível, pois eu não consigo entender o que se passa com a minha alma…”. Quando se veem nessa situação, as pessoas estreitas e pouco têm o hábito de jogar toda culpa no meio ou incluem-se na linhagem dos homens supérfluos e dos Hamlets e tranquilizam-se com isso. Mas, por ser um homem franco, Ivánov declara abertamente ao doutor e ao público que ele não se compreende. A mudança que se produziu no seu íntimo fere-lhe a honestidade. Ele procura causas externas e não as encontra; põe a procurá-las dentro de si, e só encontra um vago sentimento de culpa. Esse é um sentimento russo. O homem russo, quando alguém em sua casa morre ou fica doente, quando ele deve a alguém ou quando ele mesmo empresta, sempre se sente culpado. Ivánov fala o tempo todo de alguma, e o sentimento de culpa cresce nele a cada novo choque.

Ao cansaço, ao tédio e ao sentimento de culpa, acrescente-se mais um inimigo: a solidão. Se Ivánov fosse funcionário público, ator, pope ou professor, ele estaria acostumado a sua situação. Mas ele vive numa propriedade na província. Lá os homens são bêbados ou jogadores, ou são do tipo do doutor… Todos eles permanecem alheios aos seus sentimentos e à sua transformação. Ele está sozinho. Os longos invernos, as longas noites, o jardim vazio, os aposentos vazios, um conde resmungão, uma mulher doente… Não há para onde ir. Por isso, a todo instante atormenta-o a questão: onde se meter? Agora, o quinto inimigo. Ivánov está cansado não compreende a si mesmo, mas a vida não tem nada com isso. Ela lhe apresenta suas exigências legitimas e ele, quer queira quer não, precisa resolver os problemas. Homens como Ivánov não resolvem os problemas, mas sucumbem a seu peso. Eles se perdem, agitam-se ficam nervosos, queixam-se, cometem besteiras e, no final de tudo, depois de ter dado vazão a seus nervos plácidos e indisciplinados, sentem o chão fugir de seus pés e entram para a categoria dos “abatidos” e dos “incompreendidos”.

 

A. Tchékhov

(Trecho da carta 33)

 

Chiharu Shiota

2 fev

Mais referências de cenografia, enviadas por e-mail por Fred Teixeira.

Chiharu Shiota é uma cenógrafa japonesa que mora na Alemanha. Abaixo, imagens de trabalhos seus de 2009:

Este slideshow necessita de JavaScript.

http://www.chiharu-shiota.com/index.html

Tchekhov sob um céu aberto

24 jan

Ivanov em celebração mágica, dança na água do lago Lucille, City, NY. (Fotos copyright 2010, Steven P. Marsh)

do nosso figurinista Diogo Costa

23 jan

o pó

Leitura de “Anton Tchékov”

30 nov

Hoje lemos um lindo texto de Górki (escritor, dramaturgo e ativista político russo) onde ele fala sobre sua convivência e amizade com Tólstói, Anton Tchékov e Andrêiev. No livro, conta anedotas engraçadas sobre Tchékov e descreve o enterro de seu amigo escritor de forma emocionante.

Selecionamos alguns trechos:

Sobre Tchékov:

“  Parece- me que na presença de Anton Pávlovitch, qualquer pessoa tinha o desejo involuntário se ser mais simples, mais sincera, de ser ela mesma, e observei mais de uma vez como as pessoas se despiam de seus variegados trajes de frases livrescas, palavras em voga e outros adornos baratos com os quais o homem russo, querendo se mostrar europeizado, enfeita-se como um selvagem o faz com conchas, dentes de peixe. Anton Pávlovitch não gostava de dentes de peixe nem de plumagens de galo. Tudo que era variegado, tilintante e de origem alheia, usado para adqirir uma ‘importância maior’, deixava-o aflito, e notei que toda vez, vendo diante de si um homem ataviado, era dominado pelo desejo de despojá-lo desse pesado e inútil ouropel que desfigura a face verdadeira e a face viva do interlocutor.”

Tchékov fala sobre o homem russo. (para Ivánov)

” – O homem russo é uma criatura estranha! Nele, nada fica retido, como numa peneira. Quando jovem, enche avidamente a alma com tudo o aparece pela frente, e depois de completar trinta anos, só lhe restam uns trajes cinzentos. Para viver bem, com humanidade, é preciso trabalhar! Trabalhar com amor, com fé. E nós não sabemos fazer isso (…)”

Para Sasha:

“Saber amar, significa saber fazer tudo…”

E fala sobre o homem honesto:

“Na rússia, uma pessoa honesta é como um limpador de chaminés, cuja imagem as babás usam para assustar criancinhas…”

Contos de Tchékov citados por Górki no texto:

“O malfeitor”

“A filha de Albion”

“Queridinha”

“A estipe”

——–

*Extraído do livro “Três Russos e como me tornei escritor”

Autor: Máximo Górki

Editora: Martins Fontes

Expressionismo de Munch para Ivanov

21 out

Imagens enviadas por Aline Silva (atriz).

Y del resto no sé nada

16 out

Vídeo-dança de Ricardo Salas, com Laura Álvarez e Germán Jauregui. Nos lembra Anna e Ivanov.

Smoke, de Sylvie Guillem

5 ago

Trecho de “Smoke”, de Sylvie Guillem, como referência para nosso Ivanov.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.