Projeto Ivanov
Apresentação
O presente é sempre pior que o passado.
A. Tchekhov
(Cartas a Suvorin)
Ivanov, projeto do grupo Teatro Máquina (CE), prevê a montagem (com dupla temporada de estréia em Fortaleza e João Pessoa em 2011) de um espetáculo teatral, cuja fase de preparação envolve a residência artística com o grupo Piollin (PB) e ações formativas em um processo colaborativo com grupos de teatro do interior do Ceará, através de intercambio de praticas e ensaios abertos ao longo do processo de montagem. Os grupos do interior do Ceara sao Grupo Parque de Teatro, de Aquiraz; Oficarte, de Russas, Grupo Arte Jucá, de Arneiroz e Grupo Ninho de Teatro, de Juazeiro do Norte.
Sinopse
O texto de Tchekhov traz a figura de um herói negativo, ensimesmado com seus conflitos interiores. Exposto ao amor da esposa doente e à paixão fulminante da jovem Sasha, Ivanov se ocupa com descrições frias dos acontecimentos, imobilizado, inerte, sem fe alguma. Os negócios não vão bem, mas as aparências ainda são mantidas através dos empregados e das festas. As conversas vazias, os diálogos sobrepostos criam o clima de nao-comunicacao e renuncia, que deflagra a decadência da aristocracia rural em fins de século na Rússia czarista.
A montagem do Teatro Maquina pretende revelar Ivanov, herói solitário, mesmo que sempre rodeado de vizinhos, familiares, empregados. Sua renuncia à vida nos afeta e atualiza o drama tchekhoviano, para refletirmos sobre o nosso tempo.
Objetivos
O projeto de montagem de Ivanov pelo grupo Teatro Máquina abrange quatro dimensões, com objetivos específicos e complementares:
1. Pesquisa interna:
- investigar, através dos procedimentos da linguagem teatral, diferentes formas de revelação e exploração da obra tchekhoviana na cena ;
- promover no grupo o estudo do contexto histórico e estético da escrita tchekhoviana, desenvolvendo uma intertextualidade com suas cartas e contos;
- compreender e experimentar os mecanismos de interpretação em uma situação desdramatizada;
- desenvolver uma encenação que explore os aspectos lirico-epicos dessa estrutura dialógica;
-criar um material especifico para o exame das situações sobrepostas, através dos solilóquios, dos silêncios, dos emolduramentos, da estatutária; e
- desenvolver praticas especificas de interpretação, tendo como base o material recolhido para essa montagem.
2. Encontros colaborativos e formativos :
- realizar uma residência artística intensiva com o grupo paraibano Piollin, com foco nos processos do grupo com o espetáculo A gaivota: alguns rascunhos (2007);
- compartilhar em intercâmbio com quatro grupos de teatro do interior do Ceará as etapas do processo de encenação de Ivanov, através de ações colaborativas, durante a montagem (Grupo Parque de Teatro, de Aquiraz; Oficarte, de Russas, Grupo Arte Jucá, de Arneiroz e Grupo Ninho de Teatro, de Juazeiro do Norte);
3. Apresentações públicas e debates:
- realizar ensaios abertos para a comunidade interessada das cidades do interior onde foram realizadas os intercâmbios com os grupos de teatro, estimulando a formação de audiência;
- estrear em Fortaleza, com temporada de doze apresentações, realizando debate sobre o processo de montagem ao final das apresentações; e
- estrear em João Pessoa, com temporada de oito apresentações, realizando debate sobre o processo de montagem ao final das apresentações; e
4. Aspectos sociais e ações formativas:
- socialização do processo criativo, em suas etapas e em seus métodos, com foco na difusão do teatro de grupo como estratégia de fortalecimento da linguagem teatral no nordeste brasileiro;
- formação e qualificação de audiência através da realização de ensaios abertos e descentralização de atividades culturais por meio do intercâmbio com grupos de teatro residentes em cidades do interior do Estado do Ceará.
Justificativa
Teatro Máquina é um grupo de Fortaleza, fundado em 2003. Em nossa prática temos sempre nos preocupado com a investigação da linguagem teatral, realizando trabalhos que tem nas dimensões da pesquisa e do processo colaborativo sua principal base. A linguagem narrativa, os aspectos épicos e diferentes modelos de composição gestual e vocal são desenvolvidos a cada novo trabalho, onde sempre nos impomos desafios maiores.
O trabalho de grupo que temos defendido vem nos rendendo frutos muitos positivos na cena cearense e nacional. Alem de textos próprios, já montamos Brecht, Büchner e fragmentos poéticos de Heiner Muller. Como trabalhos mais recentes, citamos O Cantil, espetáculo de 2008, onde exploramos a manipulação aparente inspirada no Bunraku, técnica japonesa tradicional de teatro de bonecos, para expressar a relação violenta entre patrão e empregado exposta no texto A exceção e a regra. Aventuramo-nos pela dança-teatro com Répéter em 2009 e temos experimentado também ações na rua, como intervenções urbanas. Através de nossas atividades continuadas, temos nos tornado uma referencia importante para a historia do teatro de grupo no Ceara, com diversos projetos contemplados em editais, além dos prêmios e indicações, como o 21° Premio Shell de Teatro de São Paulo e participações em festivais de teatro internacionais.
Ivanov, nosso projeto para 2010/2011, é o nosso atual desafio. O interesse por Tchekhov vem justamente das investigações já em curso sobre práticas de nao-representação, demonstração, desdramatizacao, exame de situações. Tchekhov nos aparece, com esse texto anterior ao conhecido A Gaivota, num exercício de escrita dramática que revela as próprias chaves de construção e faz do drama objeto de si mesmo.
Para o processo de montagem de um texto de Tchekhov, especialmente pelas intenções de pesquisa que nos interessam, acreditamos que intercâmbios com grupos de teatro sejam fundamentais e bastante produtivos, porque nos darão elementos novos na apropriação do texto e na construção da cena, pela experiência dos grupos e pelo aspecto colaborativo e formador que uma vivência dessa natureza proporciona.
A residência com o grupo paraibano Piollin parte do desejo de troca estética com o processo de montagem de A Gaivota: alguns rascunhos, espetáculo do grupo de 2007, que usou o texto como pretexto para a descoberta de procedimentos específicos de interpretação realista, em um grupo com trajetória de teatro popular e de rua. A montagem resultou numa colagem de exercícios e fragmentos de cena, num mosaico contemporâneo e instigante, porque oferecia ao publico a possibilidade de conhecer o trabalho de grupo de uma forma sincera e aproximativa.
Nessa residência, a ser realizada no segundo mês de montagem, esperamos poder obter material novo para nosso processo, resignificando o texto e nossa abordagem de partida. Como parte do projeto, prevemos também a estréia em João Pessoa, para que possamos compartilhar com um publico mais amplo todo o processo advindo desse encontro Teatro Máquina e Piollin, através de debates ao final das apresentações.
A pesquisa prévia tem nos indicado, como aponta Peter Szondi, em Teoria do Drama Moderno que na escrita tchekhoviana o dialogo é progressivamente tomado por funções épicas, porque se apresentam comumente situações de não-comunicação, justamente através da forma dialógica, principal e característico recurso dramático. O diálogo é o lugar privilegiado para a cisão entre sujeito e objeto, onde as personagens e situações são reificadas, objetivadas, desindividualizadas. A forma dramática, que reflete sobre si mesma, opera uma revisão enquanto se supera, aparecendo nessa reflexão de forma contundente as marcas do isolamento, da regressão, da perda de sentido.
Ivanov, o herói negativo, ensimesmado, chega a não agir, tão absorto em suas análises do mundo, das mulheres, de si mesmo. Sua ação é toda interior. As personagens em Tchekhov vivem sob o signo da renúncia, renúncia ao presente, o que os prende a um passado de lembranças ou a um futuro impossível; renúncia ao encontro, o que os isola e os destitui de planos de felicidade em um encontro real. Sua única ação importante é justamente não conseguir realizar ação alguma.
Esse aspecto em especial, o da não-ação, o da desdramatização, como afirma Anatol Rosenfeld, é o que nos da uma direção para o trabalho de interpretação, cujo foco será o estudo de ações interiores motivadas por um tempo que nem é presente, nem passado, mas suspensão, entretempo, paralisação.
Dessas descobertas partiremos para a estruturação de jogos e exercícios corporais, o que nos dará estofo para a próxima subetapa do projeto, que é o intercambio com quatro grupos do interior do Ceará, onde poderemos compartilhar numa troca formativa e colaborativa nosso processo de montagem, através de exercícios surgidos dos ensaios e do encontro anterior com o grupo Piollin.
Os grupos foram estrategicamente escolhidos por suas historias como teatro de grupo e pela sua localização geográfica, na intenção de vermos multiplicados pelo interior do nosso estado esse intercâmbio, fomentando as trocas, o teatro de grupo, os processos criativos, a qualificação da audiência.
O grupo Arte Juca, de Arneiroz, nos Inhamuns, se firma como um dos grupos de teatro mais antigos da região, o grupo Parque de Teatro de Aquiraz já apresenta a possibilidade do trabalho de qualidade em arte, rigoroso e cuidadoso, com adolescentes carentes da região metropolitana de Fortaleza, o grupo Ninho de Teatro, em Juazeiro do Norte, incentiva a pesquisa de linguagem em trabalhos que mesclam performance e cultura popular no Cariri e o grupo Oficarte, de Russas, encravado no Vale do Jaguaribe, representa a resistência no trabalho com teatro já ha vinte anos, agregando jovens atores em suas ações formativas continuadas. Acreditamos poder estabelecer uma troca bastante intensa com esses grupos, através dos processos colaborativos na descoberta, criação e recriação de cenas.
Prevemos, como culminância do intercambio, ensaios abertos em cada cidade visitada, oferecendo a um público maior parte do nosso processo, o que ainda amplia as ações formativas, antes dirigidas aos grupos, já que com os ensaios abertos fomentamos também a formação de audiência.
A concepção do espetáculo acredita poder abrigar toda essas etapas do processo, já que partimos do principio colaborativo na descoberta dos procedimentos de interpretação e na construção das cenas. Beatrice Piccon-Valin, quando analisa a montagem de As três irmãs por Peter Brook, considera que as encenações contemporâneas de textos de Tchekhov devem poder recuperar o olhar lúcido e impiedoso que o autor lançava através de seus personagens ao seu tempo, atualizando-os para uma discussão sobre o nosso tempo.
O tempo é, de fato, o tema recorrente: a forma para tematizar o tempo é encontrada por Tchekhov ao deixar de usar o diálogo como instrumento de comunicação, sem função apelativa, mas lhe dando função expressiva ou lírica, o que da um tom retardante, épico e opera uma suspensão da situação dialógica através dos diversos monólogos sobrepostos.
Nosso propósito na montagem de Ivanov é poder estabelecer a cada momento do processo criativo uma relação de oposição, uma via negativa ultrapassando a identidade aparente, trabalhando com os contrastes, as intensidades e revelando a contradição e a diferença, explorando recursos como a ironia, o non-sense, a repetição, a palavra cantada, o silêncio.
Acreditamos que Ivanov, como um processo de montagem que privilegia as etapas de construção através das trocas com outros grupos de teatro, pode contribuir para o entendimento que a investigação de linguagem e a formação de audiência podem fazer parte de uma estrutura que se retroalimenta do que produz e compartilha, ampliando seu publico ao aproximá-lo dos processos criativos do teatro de grupo. Para uma maior abrangência do projeto, o grupo aposta nas dimensões da pesquisa e da troca continuada como elementos fundamentais na criação.
Plano de açao
Etapa 1: Pré-produçao
1.1 Pesquisa interna
1.1.1 Inicio dos ensaios em grupo
Período de realização:
- Novembro de 2010, encontros diários de seis horas, seis dias por semana.
Local de realização:
- Fortaleza (CE)
Atividades:
- Organização e sistematização das atividades teóricas e práticas;
- Leituras do texto;
- Exercícios de improvisação para divisão de personagens;
- Leituras objetivas com personagens definidos;
- Estudo dramatúrgico (ações, unidades, etc.) e dos conteúdos do texto;
- Revisão do material construído a partir das leituras;
- Organização e sistematização do material levantado para formatação de conteúdo básico para o Processo Criativo de Intercâmbio com o Grupo Piollin (João Pessoa-PB).
1.1.2 Retomada dos ensaios, depois do encontro com Piollin
Período de realização:
- Janeiro a Maio de 2011, encontros de seis horas diárias, seis dias por semana.
Local de realização:
- Fortaleza (CE)
Atividades:
- Continuação das leituras objetivas com personagens definidos;
- Revisão do material construído a partir das leituras;
- Construção de cenas;
- Trabalho com colaboradores externos (voz falada e dramaturgia)
- Preparação musical;
- Desenvolvimento do conteúdo prático e teórico adquirido com a Residência artística com o Grupo Piollin (João Pessoa-PB);
- Organização dos encontros teóricos e práticos com grupos de teatro do interior do Estado do Ceará.
1.2 Encontros colaborativos e formativos
1.2.1 Residência com o grupo Piollin:
Período de realização:
- Dezembro de 2010, encontros de seis horas diárias, durante duas semanas, com seis encontros semanais.
Local de realização:
- João Pessoa (PB).
Atividades:
- Troca estética com o processo de montagem de A Gaivota: alguns rascunhos, espetáculo do grupo de 2007;
- Pratica dos exercícios de interpretação realista desenvolvidos pelo grupo;
- Inicio a construção de cenas;
- Registro e publicação no blog do grupo dos resultados da experiência.
1.2.2 Intercâmbio com grupos de teatro do interior do Ceara
Período de realização:
- Abril de 2011, quatro encontros de 12 horas em cada cidade, distribuídos em três semanas e quatro ensaios abertos.
Locais de realização:
- Arneiroz (CE), com grupo Arte Juca; Aquiraz (CE), com grupo Parque de Teatro; Juazeiro do Norte (CE), com grupo Ninho de Teatro; e Russas (CE), com grupo Oficarte.
Atividades:
- Leitura do texto e demonstração de exercícios utilizados no processo;
- Apresentação de cenas surgidas e reelaboradas a partir da residência com o Grupo Piollin;
- Realização de exercícios de leitura com o grupo;
- Apresentação de leitura de cenas escolhidas;
- Ensaio da cena escolhida sob orientação do Teatro Máquina;
- Ensaio aberto de Ivanov (livre acesso para a comunidade das cidades visitadas);
- Realização de 04 debates abertos ao publico, ao final dos ensaios abertos;
- Registro e publicação no blog do grupo da experiência do intercambio.
Etapa 2. Produção e execução
2.1 Ensaios gerais:
Período de realização: Abril e Maio de 2011
Local de realização:
- Fortaleza (CE)
Atividades:
- Reunião de análise e levantamento de material prático adquirido no intercambio com os grupos de teatro do interior do Estado do Ceará;
- Encontro para estudos e estruturação da dramaturgia definitiva com colaborador externo;
- Produção de figurino, cenografia e desenho de luz.
2.2 Estréia em Fortaleza
Período de realização: junho-julho de 2011
Local de realização:
- Fortaleza (CE)
Atividades:
- Realização de temporada de doze apresentações;
- Debates ao final das apresentações.
2.3 Estréia em julho de 2011 em João Pessoa
Período de realização: julho de 2011
Local de realização:
- João Pessoa (PB)
Atividades:
- Realização de temporada de oito apresentações
- Debates ao final das apresentações para compartilhar com um publico mais amplo todo o processo advindo do encontro Teatro Maquina e Piollin.
Etapa 3: Divulgação
Período de realização: Maio, junho e julho de 2011
Locais de realização:
- Fortaleza (CE)
- João Pessoa (PB)
Atividades:
- Produção e veiculação de peças de divulgação do espetáculo nas mídias (TV, radio, mídia exterior, jornal impresso) nas cidades das temporadas iniciais de Ivanov.
Etapa 4: Pos-produçao
Período de realização: Agosto de 2011
Local de realização:
- Fortaleza (CE)
Atividades:
- Prestação de contas;
- Relatório final das atividades realizadas;
- Elaboração e envio de carta-agradecimento aos patrocinadores, grupos das atividades de residência e intercambio e demais colaboradores do projeto.
Ficha tecnica
Direçao : Fran Teixeira
Figurino: Diogo Costa
Elenco : Teatro Maquina (Aline Silva, Ana Luiza Rios, Edivaldo Batista, Bruno Lobo, Levy Mota e Loreta Dialla)
Cenografia e arte grafica : Frederico Teixeira
Desenho de luz: Walter Façanha
Bibliografia
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